A Guatambu tem o seu sistema de produção alicerçado na integração
entre a agricultura e a pecuária. Esta integração visa diluir os custos
fixos, otimizar o uso da mão-de-obra e estabilizar a rentabilidade
da propriedade como um todo.
Esquema de rotação de atividades agrícolas e pecuárias:
VÁRZEAS: rotação rápida => 1-2 anos arroz / 3-4 anos pastagem
COXILHAS: rotação lenta => ano soja ou sorgo/ 4-8 anos pastagem
PIVÔS: rotação anual => milho / pastagem / soja ou produção
sementes forrageiras
A Guatambu baseia a sua produção de carne e reprodutores no "Sistema
1 Ano", ou seja, início da vida reprodutiva e abate de novilhos aos
13-15 meses de idade.
Este sistema requer produção de alimento em qualidade e quantidade
suficientes para atender a alta demanda das categorias animais. Isto
significa pelo menos 40% da área com implantação de pastagens cultivadas
e a confecção de reservas alimentares estratégicas e grãos para suplementação
em épocas críticas de produção de pasto, normalmente no inverno.
Percentual médio de utilização da área:
Ciclo de produção pecuário
Produção de carne:
Ao desmame, todos os machos descartados do programa de seleção de
reprodutores ( 50% inferiores ) bem como as fêmeas descartadas da
reprodução (20-30% inferiores) são destinados à terminação, que pode
ser feita em regime de confinamento ou a pasto, dependendo das condições
de mercado, principalmente da relação entre o preço dos grãos utilizados
na dieta e o preço da carne.
Produção de genética:
Desde a década de 60, a Guatambu vem selecionando reprodutores,
inicialmente da raça Polled Hereford. Hoje, também comercializam-se
animais das raças Braford.
A metodologia utilizada é o que de mais moderno existe no momento
em termos de seleção animal, ou seja, a metodologia de Modelos Mistos
Modificados, aplicada pela empresa Gensys Consultores Associados,
sediada em Porto Alegre. Este método permite separar com a máxima
precisão possível, os efeitos ambientais da verdadeira potencialidade
genética dos animais, fornecendo uma poderosa ferramenta de seleção,
a DEP (Diferença Esperada na Progênie).
A seleção é focada em características de produção, com forte impacto
na economicidade dos sistemas de produção de carne, como velocidade
de crescimento (DEP Dias 160 e 400 kg), facilidade de terminação (DEP
precocidade), musculosidade (DEP Musculatura), conformação de carcaça
(DEP Conformação), peso ao nascimento (DEP peso ao nascer), perímetro
escrotal (DEP perímetro) e, iniciando no ano de 2003, DEP para Resistência
ao Carrapato.
Todas estas informações são oferecidas aos nossos clientes como ferramentas
auxiliares na hora de decidir qual a melhor genética para o seu rebanho,
aliada a uma rigorosa avaliação da parte reprodutiva e funcional dos
animais.
Bases do programa de melhoramento genético utilizado na Estância
Guatambu
Vanerlei Mozaquatro Roso, Fernanda Varnieri Brito, Vânia Cardoso,
Roberto Carvalheiro, Luiz Alberto Fries*, Carlos Dario Ortiz Peña,
Mario Luiz Piccoli, Flávio Schramm Schenkel e Jorge Luiz Paiva Severo
¹
Este texto é uma síntese dos procedimentos básicos aplicados nos programas
de melhoramento genético coordenados pela GenSys. Muitos dos conceitos
aqui apresentados foram desenvolvidos e aprimorados a partir de sugestões
dos próprios criadores no decorrer de vários anos de coleta de dados
para o melhoramento genético. Num programa de melhoramento genético,
antes de selecionar os animais e planejar os acasalamentos, temos
muitas etapas a serem cumpridas. Começamos pela identificação dos
animais.
Identificação dos animais
A identificação de todos os animais (produtos, touros e vacas) é pré-requisito
básico para o monitoramento individual, controle de produção e melhoramento
genético dos rebanhos. Todos os animais devem ser identificados de
forma permanente já nos primeiros dias de vida. Um bom sistema de
identificação, contendo 12 caracteres (formato A12), pode ser obtido
pela concatenação de Programa, Fazenda, Número e Ano de Nascimento,
conforme descrito a seguir:
Programa (01 caractere) - Uma letra para indicar
o programa de melhoramento genético no qual o animal nasceu e foi
controlado (exemplo: A para Aliança; C para CFM, G para Conexão
Delta G, N para Natura, P para PAINT, Z para ABCZ, etc).
Fazenda (04 caracteres) - Combinação de quatro
caracteres (letras e/ou números) para identificar a fazenda na qual
o animal nasceu (exemplo: ALV para Alvorada, SJO para indicar São
João, etc). Não é permitido duas ou mais fazendas utilizarem um
mesmo código dentro do mesmo programa.
Número (05 caracteres) - Este campo pode conter
até cinco caracteres. Ele contém um número seqüencial, que indica
a ordem de nascimento do animal dentro da safra e fazenda. O número
210, por exemplo, indica que o animal é o 210º na ordem de nascimento
dentro da safra (ano de nascimento). Embora exista a possibilidade
para se utilizar até cinco caracteres, geralmente utilizam-se até
quatro dígitos, o que contribui grandemente para minimizar erros
na leitura e transcrição das identificações. Algumas fazendas combinam
uma letra e um número para indicar, respectivamente, o ano de nascimento
e a ordem de nascimento do animal dentro da safra e fazenda.
Ano de Nascimento (02 caracteres) - Contém os dois
últimos dígitos do ano de nascimento do animal.
Por exemplo, o animal 210, nascido em 2007, na fazenda Alvorada, no
Programa da Conexão Delta G, ficaria com a identificação GALV21007.
| Programa |
Fazenda |
Número |
Ano de Nascimento |
| G |
ALV |
210 |
07 |
| 1 caracter |
3 caracteres |
Até 5 caracteres |
2 caracteres |
Métodos de identificação A tatuagem do número nas
duas orelhas se constitui na identificação básica. Além da tatuagem,
recomenda-se utilizar pelo menos mais um método complementar, pois
nenhum método reúne todas as vantagens. Conforme a raça, diferentes
combinações de métodos de identificação podem ser utilizadas. Por
exemplo:
• nas raças Zebuínas - Tatuagem combinada com marca a fogo ou tatuagem
combinada com brinco.
• nas raças Taurinas e nos cruzamentos entre Zebuínas e Taurinas -
Tatuagem combinada com brinco.
Estas combinações de métodos garantem segurança e permitem ótima visualização
das identificações nas atividades de rotina com os animais.
Características desejáveis de uma boa identificação:
O sistema e os métodos de identificação devem aliar uma série de características
desejáveis:
• Única - A identificação de cada animal deve ser encontrada apenas
uma vez, não importando a fazenda, a raça, a categoria e o ano de
nascimento. Dois animais não podem possuir a mesma identificação.
• Permanente - A identificação base deve ser a tatuagem do número
nas duas orelhas. Este método garante segurança contra perdas de identificações.
• Insubstituível - Ao receber uma identificação logo após o nascimento,
o animal deve permanecer com esta mesma identificação durante toda
a sua vida.
• Prática - A utilização de brincos ou marca a fogo facilitam a leitura
das identificações. A combinação destes métodos complementares com
a tatuagem nas duas orelhas (identificação base) permite comprovar
a identificação do animal sempre que existir alguma dúvida ou a necessidade
de vistoria.
• Universal - Se a identificação for baseada num formato semelhante
aos utilizados em vários outros programas de melhoramento genético
no país, haverá maior facilidade na troca de informações entre programas.
Coleta de Dados
A coleta de dados é uma das tarefas mais importantes num programa
de melhoramento genético. Esta tarefa geralmente envolve boa parte
da equipe de pessoal da fazenda, desde o peão até o técnico. As pessoas
responsáveis pela coleta de dados devem ser devidamente treinadas
para executá-la. Alguns detalhes relativos à coleta de dados, bem
como as características coletadas em cada fase do ciclo biológico
dos bovinos de corte, são abordados a seguir:
Fase de controle do estoque de vacas e touros -
A função desta fase é atualizar os cadastros gerais das vacas e
dos touros (inclusive os touros de inseminação artificial) a serem
usados na reprodução. Neste momento, pode-se proceder a inclusão
de animais no sistema de controle, fazer correções, informar baixas
e atualizar a localização dos animais.
Fase de reprodução - Ao iniciar a fase de reprodução
é emitida uma listagem atualizada contendo as vacas disponíveis
para reprodução. Neste formulário deverão ser transcritas diariamente
informações de reprodução, tais como a data do acasalamento e a
identificação do touro utilizado. Com este procedimento é possível
detectar e corrigir em tempo hábil erros de identificação de vacas
e dados reprodutivos.
As principais informações coletadas na reprodução são:
• Identificação da vaca;
• Identificação do touro usado no acasalamento;
• Tipo de serviço (I = inseminação artificial, C = monta controlada,
M = monta múltipla);
• Data ou período do acasalamento;
• Diagnóstico de gestação (P = prenha, F = falhada);
• Grupo de manejo;
• Código do inseminador;
• Peso, altura e condição corporal da vaca (opcionais).
Fase de nascimento - As informações coletadas no
nascimento são anotadas na caderneta de campo e/ou no pró-coleta
de nascimento. Geralmente estas informações são coletadas junto
com as práticas sanitárias rotineiras ao nascer, tais como no momento
das aplicações de cicatrizante no umbigo e de vermífugo.
As principais informações coletadas no nascimento são:
• Identificação do produto;
• Data do nascimento;
• Sexo do produto;
• Peso do produto;
• Grupo de manejo;
• Identificação da mãe.
Fases de desmama e sobreano - A regra é avaliar
geneticamente os animais em dois momentos-chave do ciclo de produção
bovina: na desmama (entre 6 e 8 meses de idade) e no sobreano (entre
14 e 18 meses de idade). Assim como nas fases de reprodução e nascimento,
as informações coletadas nas fases de desmama e sobreano são anotadas
em formulários apropriados (pró-coletas).
Os formulários organizam a coleta dos dados e minimizam erros, pois
trazem impressas as identificações dos animais, evitando que as
mesmas sejam re-escritas. Os formulários de desmama e de sobreano
contêm espaços para anotar o peso de cada animal, a data da coleta
dos dados, o código do grupo de manejo e demais características
avaliadas.
As principais informações coletadas na desmama são:
• Peso com jejum completo de 12 a 14 horas (kg);
• Conformação (escores de 1 a 5);
• Precocidade de terminação (escores de 1 a 5);
• Musculatura (escores de 1 a 5);
• Tamanho (escores de 1 a 5);
• Prepúcio/umbigo (escores de 1 a 5);
• Data da avaliação;
• Grupo de manejo.
As principais informações coletadas no sobreano são:
• Peso com jejum completo de 12 a 14 horas (kg);
• Conformação (escores de 1 a 5);
• Precocidade (escores de 1 a 5);
• Musculatura (escores de 1 a 5);
• Tamanho (escores de 1 a 5);
• Altura (cm);
• Prepúcio/umbigo(escores de 1 a 5);
• Perímetro escrotal (cm);
• Área de olho de lombo (cm2);
• Espessura de gordura subcutânea (mm);
• Resistência ao carrapato Boophilus microplus (contagem na região
entrepernas);
• Caracterização racial (escores de 1 a 5);
• Temperamento (escores de 1, 2, 4 ou 5);
• Pigmentação ocular (ausente, parcial ou total);
• Comprimento do pêlo (curto, médio, longo);
• Pelagem;
• Chifre (mocho, batoque ou padrão);
• Data da coleta dos dados;
• Grupo de manejo.
Grupo de manejo
O grupo de manejo caracteriza um conjunto de indivíduos manejados
sob as mesmas condições ambientais (nutricionais, sanitárias, etc)
e que, portanto, receberam as mesmas oportunidades para expressar
o potencial genético.
Os grupos de manejo devem ser formados nas fases de reprodução, nascimento,
desmama e sobreano. O rigor na formação dos grupos de manejo está
fortemente relacionado com o grau de sucesso em separar adequadamente
os efeitos genéticos dos efeitos ambientais nas avaliações genéticas.
A simples determinação dos grupos de manejo em confinados, semi-confinados
e a pasto, na maioria das vezes, compromete seriamente as avaliações
genéticas. Será que os níveis nutricionais proporcionados por todos
os pastos da propriedade são semelhantes? Será que os pastos não poderiam
ser melhor especificados de acordo com a qualidade, pelo menos em
baixa, média e alta qualidade?
Sistema de controle de dados
A digitação e o armazenamento dos dados devem ser realizados através
de um sistema informatizado de controle de dados de produção. O uso
de um sistema informatizado de controle de dados proporciona uma série
de benefícios:
• Não permite que, por erro de leitura, transcrição ou digitação,
dois animais sejam cadastrados com a mesma identificação;
• Possibilita a validação e consistência dos dados a serem utilizados
nas avaliações genéticas;
• Fornece informações sobre o desempenho da fazenda, por safra, fase
do ciclo biológico, categoria, animal e funcionário;
• Fornece dados para comercialização dos animais;
• Fornece elementos que auxiliam na seleção dos animais;
• Permite o controle automático da composição racial dos animais.
O uso de um sistema informatizado de controle é absolutamente necessário
quando se trabalha com animais cruzados/compostos, pois é impossível
controlar manualmente a composição racial dos produtos num grande
programa de cruzamento, principalmente quando são usados touros e
vacas cruzadas. O sistema de controle de dados deve calcular automaticamente
a composição racial dos produtos com base na composição racial dos
touros e das vacas. A maioria dos criadores ainda prefere anotar nos
formulários (pró-coletas) os dados das avaliações para, posteriormente,
no escritório, fazer a digitação através do sistema informatizado
de controle. Entretanto, se o criador dispuser de um computador portátil,
a digitação dos dados pode ser feita ainda no curral/mangueira, no
momento da avaliação.
Avaliações genéticas
Depois de finalizadas as etapas de coleta e digitação dos dados, a
próxima etapa do programa de melhoramento genético é a realização
das avaliações genéticas. As avaliações genéticas são realizadas por
técnicos especializados em dois momentos-chave para a seleção dos
animais: na desmama e no sobreano. Nas avaliações genéticas, para
cada característica de interesse econômico, são geradas estimativas
de DEP (Diferença Esperada na Progênie). As DEPs de cada animal são
combinadas de acordo com o valor econômico e a ênfase que se quer
dar a cada característica formando os Índices Desmama e Final.
Seleção dos animais
De posse dos relatórios contendo as DEPs de cada característica e
dos Índices, o criador e/ou seu técnico faz a seleção dos animais,
destinando os melhores à reprodução e os inferiores à engorda. Por
congregarem num único valor as diversas DEPs, os índices facilitam
o processo de seleção.
As avaliações genéticas dão origem aos seguintes relatórios:
• Relatório da desmama - Este relatório contém as DEPs e o índice
de cada animal considerando o seu desempenho no período do nascimento
até a desmama. Com base nas informações contidas no relatório da
desmama pode-se descartar uma percentagem dos machos imediatamente
após a desmama.
• Relatório de vacas - Juntamente com a avaliação genética dos produtos
na desmama, o criador recebe o relatório da avaliação genética das
vacas. De posse deste relatório, é possível descartar as piores
vacas com base nas suas DEPs e índices.
• Relatório final - As DEPs e índices apresentados no relatório
final consideram o desempenho dos animais desde o nascimento até
o sobreano. De posse deste relatório, o criador deve fazer a separação
dos tourinhos e novilhas destinados à reprodução daqueles destinados
a terminação.
• Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP) - Após
descartar uma parte dos animais inferiores na desmama e outra no
sobreano, somente os 20% melhores tourinhos e novilhas da safra,
aprovados na revisão final, estão aptos para receber o CEIP, autorizado
pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA.
O CEIP confere isenção de ICMS na comercialização do animal e possibilita
o seu ingresso em centrais de inseminação artificial para coleta
e comercialização de sêmen.
• Sumário de touros - O sumário de touros é uma ferramenta de grande
importância para promover o melhoramento genético tanto das fazendas
participantes do programa de melhoramento genético quanto das fazendas
externas ao programa. O sumário de touros é geralmente publicado
uma vez por ano. Além da forma impressa, o sumário de touros pode
ser apresentado na forma informatizada.
Planejamento dos acasalamentos
Para planejar os acasalamentos, o criador/técnico pode contar com
o auxílio de um programa de computador denominado PAD (Programa de
Acasalamentos Dirigidos). O PAD simula os acasalamentos de cada matriz
com todos os touros disponíveis na propriedade.
As informações das avaliações genéticas das vacas e dos touros são
combinadas na forma de índices médios esperados na futura progênie.
Com base nestes índices e nas orientações, restrições e objetivos
de cada rebanho, o programa indica os melhores acasalamentos.
Além de possuir opção para maximização dos índices, o programa proporciona
o controle da endogamia e a realização de acasalamentos corretivos.
Todas estas opções podem ser consideradas simultaneamente através
da aplicação de restrições. As restrições impostas sobre os acasalamentos
visam à obtenção de animais harmônicos e produtivos, sem defeitos
que os desclassifiquem para o recebimento do CEIP e que diminuam o
valor comercial. O programa de acasalamentos dirigidos também permite
controlar a intensidade de uso de cada touro.
Programa de touros jovens
O programa de touros jovens, além de promover e disseminar o progresso
genético entre os rebanhos participantes do programa, fornece informações
da progênie para identificar de forma mais rápida e precisa os touros
superiores, que no futuro poderão ser usados intensivamente na reprodução.
Para participar do programa de touros jovens, os animais devem ser
submetidos a uma forte pressão de seleção. Eles devem estar entre
os 1% melhores machos com CEIP, sendo eles escolhidos através do PAD.
O PAD simula o acasalamento de cada candidato (macho com CEIP) com
todas as novilhas participantes do programa e indica os touros jovens
que produzirem os melhores resultados nos seguintes critérios básicos:
• Acasalamentos para maximização do índice final da futura progênie;
• Acasalamentos corretivos para características produtivas e raciais;
• Manutenção da endogamia em níveis aceitáveis.
O sêmen congelado dos touros jovens aprovados para o teste de progênie
é distribuído entre os rebanhos participantes do programa, de modo
que pelo menos 10% dos produtos de cada rebanho sejam filhos destes
touros jovens.
¹ Equipe GenSys
*Dr. Luiz Alberto Fries, sócio do Gensys, faleceu em 09/11/2007.